Cristobudismo notas - post 1
post do dia 12/03/2026
Bom, como eu não consigo viver as coisas em silêncio, vou tentar organizar esses momentos em que não conseguir me calar aqui neste blog mesmo. Pode ser que algumas coisas sejam em áudio, mas, o que for em texto, com exceção de hoje, eu vou tentar escrever como descrição do Youtube, pra tentar escrever menos, porque quando, escrevo em blog, acabou escrevendo demais.
Hoje em específico, porém, escreverei diretamente no blog, porque o carregador do notebook está com problema, então estou pelo celular, mas conectado a um teclado USB.
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1) Eu estou obcecadíssmo com essa ideia de "desperto" e "dormindo". De novo, não significa que eu aprendi a estar desperto o tempo todo, mas, ao contrário, eu me percebo "dormindo" a maior parte do tempo. Exemplos:
--> a) a situação de você ficar passando indefinidamente vídeos no YouTube ou tiktok, ou posts no Instagram. Nesses momentos eu me sinto dormindo, é como se uma parte minha estivesse desligada, e é por ela estar desligada que eu não consigo sair dessa cadeia. Mesmo que eu queira sair, eu invento uma desculpa para permanecer. Ex.: "só mais um vídeo", ou "já já eu saio". Essas desculpas são automáticas, e é a mente, presa nesse fluxo, qeu as cria.
--> b) Imagine os pais reclamando de um filho que só fica no joguinho e não faz mais nada, é como se o resto da casa não existisse, e, enquanto joga, ele nem nota quando falam com ele. Ele está tão concentrado ali que todo o resto da existência como que se desligou. Apesar disso poder ser estimado como algo positivo, a capacidade de concentração, mas efetivamente a pessoa está se concentrando em algo inútil, que, justamente por ser inútil, não requer esforço nenhum para ganhar concentração. E, mais ainda, a pessoa não está livre durante esse período: do mesmo jeito, é "só mais uma partida", "só mais 5 minutos" etc.. Isso não vem a nós por escolha, mas como reflexo da mente que ficou presa a aquele estado.
E aí eu queria acrescentar uns casos extras.
--> c) Alguns anos atrás eu tinha amigos olavette aqui na cidade. Uma amiga em especial me considerava um cara tão sincero que ela me tomava como modelo nesse sentido (em tudo o mais, não, e com razão hehe). Mas nem nisso eu era modelo: toda conversa que eu tinha, principalmente com ela, eu sempre saía com a sensação de que fiz tudo errado, de que não fui eu mesmo, de que não fui sincero. É como se quando eu começasse a conversar com ela -- mas não é só com ela -- eu imediatamente encarnasse um papel de acordo com a situação, e minha ação fica presa dentro desse papel. Eu tenho, claro, certa liberdade de escolha, há um conjunto de ações que fazem sentido com esse papel, mas há um outro conjunto de ações, às vezes mais importantes, que não cabem ali, e que nem mesmo são sugeridas à mente. Exatamente como o sujeito que está preso no jogo sente como seus os impulsos de "só mais 5 minutos" ou "só mais uma partida", mesmo que esse impulso se repita mais várias vezes. Isso tudo está como que dentro do "papel" que o jogo transfere para ele. Então, voltando ao caso específico da conversa, toda vez que eu terminava uma conversa, eu sentia que estava tudo errado, mas não sabia como resolver. Eu descrevia isso como "falta de sinceridade".
É curioso pensar nisso pelo termo "sinceridade". Significa que "ser sincero" é uma das aparências do "estado desperto". Ou seja, sinceridade não é você falar qualquer porcaria que venha na cabeça, mas, sim, ser capaz de se despir do personagem que a situação lhe prende a ser e, daí, expor o que realmente é mais conveniente conforme a situação mesmo que seja algo totalmente fora do personagem esperado.
Olavo dizia que o escritor só era sincero enquanto escrevia, enquanto o santo era sincero o tempo todo. Isso, nesse contexto, adquire um sentido bem interessante.
Mais um caso: tem um vídeo em que Olavo cita uma médica geriátrica americana que fazia tratamento paliativo nas pessoas e daí descreveu quais as coisas que elas mais se arrependem. E Olavo sintetiza: foi falta de sinceridade. As pessoas engolem o sapo ao invés de serem sinceras e daí não precisar mais pensar no assunto.
Tudo isso se encaixa nisso que estou falando, apesar de eu coloca nessa outra chave mais geral.
--> d) Uma situação me ocorreu que é justamente o que me travou aqui e me fez querer tentar sair mais do canal do YouTube e ficar mais na especulação doida e aqui no blog. Eu já relatei algumas vezes que quando eu era mais novo, ali entre os 14-19 anos, ou seja, até conhecer Olavo e decidir segui-lo, eu era absurdamente louco. Eu vivia com um caderno por perto, escrevendo qualquer porcaria que vinha na mente, na vã esperança de conseguir achar alguma resposta prós meus problemas pensando. Nada se resolvia, obviamente, porque pensar é girar em torno das mesmas ideias que você já tem, então não há nada novo, e se nesse estado de mente você não resolveu seu problema ainda, é porque a solução não está na sua mente, mas precisa ser procurada fora dela. Eu não sabia de nada disso, nem saberia onde procurar, então ficava rodando em círculos, ou percorrendo um labirinto terrível. Todo esse período, escrevendo, eu chamava de "escuro", era imensamente triste. O que me libertou -- não totalmente, mas assinalou a esperança -- desse estado foi descobrir o insight, o nascimento de novas ideias. Cada nova ideia é como uma quebra desse mundo fechado do estado da mente. É uma esperança que se deposita, é uma alegria e um prazer. É possível que esses dois estados, o de escuridão e o do insight, na verdade sejam só traduções de "dormindo" e "acordado por um segundo". Não que o estado de plenamente acordado seja receber insights a cada segundo, não me parece ser exatamente isso, mas o insight é a imagem da abertura da mente para o estado desperto. Talvez seja daí que vem o prazer, inclusive.
--> e) No meu caso em específico, eu sou tão, mas tão doido, que até o ato de me coçar involuntariamente para mim já é estar dormindo. E eu me coço pra cacete, então avaliem que eu de fato estou dormindo o tempo todo. Hoje em particular eu dormi MUITO, MUITO mesmo, praticamente voltei ao meu estado normal. Eu já estava caindo de volta até no estado de crise, que é quando chovem pensamentos na minha mente e eu não consigo mais aplicar minha vontade ao que eu queria e, portanto, fico praticamente paralisado. Mas deu certo, não foi tão longe assim. E, de novo, a meditação abriu como que uma esperança no meu coração. E, desta vez, não é o mesmo tipo de esperança que Olavo me ofereceu, porque a que eu vi com Olavo, apesar de ter salvado minha vida, não me deu a resposta pro meu problema específico. Mas a budista deu. Então sigamos na luta pra tentar organizar a vida prática.
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2) Nessa brincadeira de desperto e dormindo, me ocorreu a etapa seguinte de investigação: opora, será que dá pra tentar estar "desperto" mesmo quando se está fisicamente dormindo? Ontem eu tinha feito a pergunta e, não sei se por causa disso, hoje eu não consegui me levantar direito. Cochilei umas 5 vezes seguidas, foi uma bosta. Eu não costumo lembrar nunca dos sonhos. Mas aí eu avaliei, de ontem pra hoje, que talvez estar desperto fosse tentar lembrar dos sonhos e descrevê-los para tentar lembrar mais deles. Mas ao terminar essa fase dos cochilos, me ocorreu que, por exemplo, no estado de meditação, interessa menos conseguir lembrar de cada um dos pensamentos que ocorreu do que, afinal, estar presente ali vendo os impulsos.
Então ocorreu duas ocasiões: talvez seja possível tentar sonhar com entrar no estado de meditação. E talvez seja possível optar por meditar durante o sonho.
Não faço a menor ideia, mas, guardando isso em mente, vou ver as cenas dos próximos capítulos.
3) Eu li algo com uma coleção de falas da Madre Teresa de Calcutá ela falando algo como "o Espírito Santo abarcar o nosso espírito e agir através de nós". E essa frase, que não é exatamente a que eu disse, bateu. Isso se juntou com
a) o sermão do Mestre Eckhart sobre pessoas boas mas que ainda podem cometer dois erros: o de fazer o Bem querendo o Paraíso e o de aprisionar o Espírito Santo à sua vontade, ao que Eckhart diz que é só limpando o templo dessas duas inclinações que Jesus Cristo pode falar lá livremente;
b) a lembrança de que mesmo São Francisco de Assis ainda comete alguns erros, tentando cumprir a sua vontade por não saber a Vontade Certa. Tem um caso em que ele é convidado por um bispo para ir banquetear com ele, e São Francisco não sabe o que fazer, mas decide aceitar, e é atacado por demônios. Depois de ficar muito machucado, ele percebe que fazer isso seria ir conta sua Regra, e isso arreferceria a fé dos irmãos da Ordem.
c) um segundo caso do Francisco é quando ele está querendo ir por vontade própria procurar o martírio, mas "Deus provê que as coisas sigam de outro modo".
d) lembro também da frase que muito me influenciou de São João da Cruz sobre a Virgem Maria, de que ela "jamais teve impressa na alma a forma de alguma criatura nem se moveu por ela, mas sempre agiu sob moção do Espírito Santo".
e) Aqui se soma também um outro sermão de Eckhart, que inverte a noção de Marta e Maria, vida ativa e vida contemplativa, mas para ilustrar esse princípio. A Marta comum é aquela que se dedica só à vida prática, mas uma parte da sua vida é dedicada a Deus, e essa é a melhor parte, a que não lhe será tirada. E aí em oposição à Marta comum tem a Maria, que é aquela totalmente dedicada a Deus, e é imagem da vida do monge, ou da vida dedicada à contemplação. Mas Eckhart acrescenta um grau: a maior contemplativa é a própria Marta. Ela não precisa mais ficar aprendendo com Deus, ela já aprendeu, e agora sua vida comum já é contemplação.
Avaliando essa questão, misturando com a noção de desperto e dormindo, me ocorreu o seguinte...
O equivalente a "ser guiado totalmente pelo Espírito Santo" no budismo parece ser estar desperto o tempo todo. Ou seja, atingir o estado de máxima liberdade do corpo e da mente. Lembrando que isso significa ser capaz de colocar um hiato em todos os impulsos do corpo e ser capaz de colocar um hiato em todos os impulsos da mente, de modo que você possa decidir livremente a resposta que dará em cada impulso. Isso é a máxima liberdade humana.
E aí digamos que budisticamente tem 2 modelos. Um é mencionado pelo Gugu, é o "como quando tenho fome, durmo quando tenho sono". Isso significa saber discernir plenamente corpo de mente, ou seja, você come não porque quer comer, ou come pra saborear algo gostoso, ou pra engordar, ou pra emagrecer, ou pra ficar musculoso, ou pra ficar mais bonita, você come porque seu corpo sentiu fome de fato. Gugu ainda completa "tem gente que acha que quer ser o Bill Gates (impulso da mente), mas na verdade só queria comer algo gostoso (impulso da mente sobreposto a um impulso do corpo)". Então esse estado seria o pleno discernimento de corpo e mente, e negociação na vida comum.
O outro estado seria o que no budismo eu imagino que seria análogo ao estado da Virgem Maria, ou o estado de Buda.Buda dizia que não podia abandonar o ato de mendigar, porque senão a sangha se destruiria. Eu havia sido ensinado de que ele pedia esmola porque assim estaria fazendo as pessoas fazerem um ato de compaixão, e isso ajudava a alma delas rumo à salvação, digamos assim. Mas hoje me ocorreu outra ocasião mais importante: se o sujeito está plenamente desperto, ou seja, domina perfeitamente corpo e mente, ele pode submeter corpo e mente à não-mente, ou seja, não se preocupar mais nem em suprir as próprias necessidades de nenhum dos dois, mas apenas focar na permanência do estado de desperto e no espalhamento desse estado em absolutamente cada ato. Acho que foi na aula dos 6 dias de criação que Gugu falou que na Virgem Maria todos os impulsos corporais eram ascendentes, eram, digamos, espirituais também. E isso significa, nas histórias qeu circulam sobre a Vida da Virgem, que até seu alimento era materializado e entregue por anjos. Tudo isso em sentido literal. Isso, acredito eu, porque o Deus de Abraão é o Deus que manifesta o Maná ao seu povo: Ele o alimenta e cuida dele como um Pai. Já o estado búdico, mesmo no seu momento mais perfeito, com o Sidarta Gautama, não se refere a esse tipo de circunstância. Mas, daí, talvez a perfeita budeidade, ou seja, a integração de todos os impulsos de corpo e mente à obediência da não-mente, seja o equivalente a mendigar, pra estar plenamente entregue ao karma nas ecessidades vitais, e drigir o máximo de seres a esse estado.
Avaliando esses estados, eu consigo ver o quão monstruosamente, ridiculmente, eu estou longe de qualquer coisa parecida com isso. Mas, ao mesmo tempo, é monstruosamente curioso tudo isso. Eu penso isso e, ao mesmo tempo, reconheço que pra maioria das pessoas esse tipo de assunto deve ser um saco completo, como pra mim também seria. Ler sobre esse assunto é um saco, vivê-lo, aí já é mais interessante.
Também ficou mais clara a diferença entre o estado búdico e a plenitude do Espírito Santo, como Gugu diz, de que os monges querem não só receber a ação do Espírito Santo, mas prendê-lo em si, ou seja, reajustar toda a vida deles para que possa conter o Espírito Santo, porque, imagino eu, essa seria a vida verdadeira deles, á vida segundo Deus a imaginou. Ele menciona em algumas aulas (Gênesis?) que a Virgem Maria ou Buda são o único tipo de pessoa que sabe qual é a melhor vida que deveria estar vivendo. Nós todos não sabemos.
Mas e o que é isso? Ora, dito de modo simples, é discernir o que é, no seu contexto pessoal, qual é a Vontade de Deus, a vontade permanente que ele tem perante nós, e, a partir dela, ir crescendo em discernimento. Por exemplo, Madre Teresa era freira, e, de repente, sentiu um "chamado dentro do chamado": ela deve servir aos pobres da Índia, e, em especial, aos mais pobres e necessitados dentre eles, porque Jesus disse que quem servisse aos menores, estaria servindo a Ele. Gugu chama isso de "conselho", ou ainda, é uma Regra. Uma vez que aparece uma Regra, você sente o desejo colossal de obedecê-la: ela é a úncia coisa que importa, tudo o mais da sua vida pode ser destruído, mas ela permanece. E, nisso, você se entrega e essa Regra cresce dentro de você. Ela revela seus detalhes, e te ensina a Verdade do Evangelho. Mas é nesse processo de discernimento dos detalhes da Regra na prática é que vão surgir os "demônios", os "ataques", o Opositor. Os últimos estágios são justamente o discernimento perfeito da Vontade de Deus, ou seja, é soltar a pomba que durante esse processo muitas vezes foi, por ignorância, posta na gaiola. Uma vez discernida essa Vontade Santa, isto é sua vida perfeita, a vida ideal que você deveria viver.
Qual é a função de uma vida assim? 1o Salvar mais almas, 2o reduzir o sofrimento dos homens. Paralelamente, é apenas essa vida que te dá plena felicidade aconteça o que acontecer.
Ela é totalmente oposta na forma à vida budista, mas, ao mesmo tempo, nem é tanto assim.
A vida budista, como falei, é praticar pra se manter no estado de "desperto", onde você, mesmo concentrado numa atividade, mantém um pedaço seu separado dela e observando corpo e mente. Viver assim permanentemente. Viver isso significa também viver em estado de completa tranquilidade e paz. E quem vive em paz vê a ausência de paz melhor do que ninguém, e sabe a solução. Enrão a vida assim se torna entregue a levar o máximo de seres ao estado de paz, seja ensinando o caminho, seja libertando os seres do sofrimento. Ambos são meios de libertação: um livrando a ignorância, ou condições internas, outro livrando as condições externas.
A semelhança de ambos é porque também na via cristã vai haver o percurso de consciência dos impulsos do corpo e mente e a colocação do hiato entre impulso e resposta (é aquele papo dos pecados mortais, veniais, capitais, imperfeições, pecado original e a sutilização gradagiva da percepção etc.). Mas a via budista se contenta em resolver esse problema, e a via cristã acrescenta a isso a camada do amar como Cristo amou. É possível imaginar assim o cristianismo como um complemento, uma coroa do budismo, mas não faço a mínima ideia.
Vou continuar fazendo experimentos.
nota extra: hoje fui no centro budista depois de meses sem ir e notei que algumas ações que eu tomava ecoavam certos koans, tal como eu os tinha entendido. Isso abre umas perspectivas sobre a forma da vida budista, os "sinais". No caso são "sinais" sobretudo porque só são comunicáveis a quem adquiriu cultura budista. Assim como os sinais cristãos só são comunicáveis dentro do conhecimento do Evangelho e do Velho Testamento. Remoerei mais a respeito.
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